Nova ‘Kiss & Fly’ no Aeroporto de Salvador ameaça bolso de motoristas; entenda a polêmica
O nome é até simpático: Kiss & Fly. Mas a novidade prevista para o Aeroporto Internacional de Salvador não tem nada de romântico para quem trabalha com transporte. Trata-se de uma cobrança para veículos que excederem o tempo de 10 minutos parados nas áreas de embarque e desembarque.
A taxa, prevista para entrar em vigor ainda neste primeiro semestre, deixou motoristas e usuários apreensivos. Para quem depende do tempo para organizar passageiros e bagagens, o limite pode ser curto demais. “Vou quase todos os dias ao Aeroporto e posso dizer que 10 minutos é muito pouco, por vários motivos”, afirma o motorista de aplicativo Jucélio dos Reis.
Ele cita exemplos comuns que costumam alongar o atendimento: passageiros idosos ou com necessidades especiais, pagamentos por Pix e a logística de carregar e descarregar malas. “Tem gente que vai procurar um carrinho e demora três, quatro minutos só nisso. Se essa taxa realmente for cobrada, temos que avaliar se a corrida vale realmente a pena”, pondera Jucélio.
Em nota, a Vinci Airports, concessionária que administra o terminal e que já obteve o alvará para o serviço, disse que o início das operações e o valor da cobrança serão comunicados previamente e que haverá um período de adaptação e orientação aos usuários. Segundo a empresa, o objetivo do Kiss & Fly é “organizar o fluxo de veículos, aumentar a segurança e evitar congestionamentos nas áreas de embarque e desembarque”.
Apesar das justificativas, a medida enfrenta questionamentos internos. Segundo apuração do Grupo A TARDE, órgãos da gestão municipal — entre eles a Transalvador e a Procuradoria Geral do Município — estão avaliando a legalidade da iniciativa. A superintendência de trânsito lembra que implantar cancelas ou mecanismos tarifados de controle de acesso em via pública exige análise do respaldo legal e autorizações municipais.
O debate sobre o Kiss & Fly insere-se em um contexto maior de insatisfação com os preços e práticas de estacionamento na cidade. Recentemente, a Transalvador fez mudanças na Zona Azul da orla entre Patamares e Piatã: a tarifa única passou a ser R$ 6, com direito a até seis horas de estacionamento, eliminando opções de R$ 3 (duas horas) e R$ 9 (doze horas).
A mudança dividiu opiniões. Frequentadores que ficam por pouco tempo na orla reclamam do aumento de custo mensal, enquanto quem permanece por mais tempo, em família por exemplo, enxerga benefício na nova política. O comércio de estacionamentos privados e shoppings também se destaca pelos valores: em alguns centros a primeira hora gira em torno de R$ 15, já no aeroporto a tabela citada é de R$ 30 na primeira hora e R$ 15 por hora adicional ou fração.
Fiscalização tem sido alvo de ações. A operação Parking Legal, do Procon-BA, vistoriou 31 estacionamentos privados em Salvador no mês passado e autuou 28 por irregularidades como cobrança indevida de hora cheia e falta de tabela de preços. O diretor de Fiscalização do Procon, Iratan Vilas Boas, alerta que cobrar vantagem excessiva fere o Código de Defesa do Consumidor e recomenda denúncias pelos canais oficiais do órgão: denuncia.procon@sjdh.ba.gov.br ou pelo portal ba.gov.br.
No centro desse conjunto de debates estão motoristas de aplicativo, trabalhadores do transporte e consumidores que já enfrentam tarifas elevadas. Com a promessa de um período de adaptação e orientações, a expectativa agora é por esclarecimentos sobre valores e garantias legais sobre a cobrança do Kiss & Fly.
