Esqueça selfies: novo turista chega à Bahia em busca de vivência cultural
A Bahia deixou de ser apenas um álbum de cartões-postais. Além do Pelourinho, do Elevador Lacerda e do Porto da Barra, cresce um público disposto a vivenciar a cultura local: aprender, participar e levar memórias afetivas em vez de fotos perfeitas.
Esse turista de experiência procura aulas de capoeira, rodas de samba de roda do Recôncavo, oficinas de percussão, passeios com moradores do Centro Histórico, visitas a comunidades quilombolas e até a participação em cozinhas tradicionais para aprender a fazer moqueca. O objetivo é sentir as histórias, os ritmos e as tradições que sustentam a identidade baiana.
Quem convive com esse movimento percebe a mudança. Mestre Bamba, nascido Rubens Costa Silva, diz que os visitantes não querem mais apenas assistir. “Hoje, os visitantes querem viver a cultura de verdade, entender a história da capoeira, saber quem foi Mestre Bimba, Mestre Vermelho 27, Mestre Vermelho Boxel. Querem aprender a tocar um berimbau ou atabaque, participar de uma roda, experimentar o samba, conhecer as nossas tradições”, relata.
Na Associação de Capoeira Mestre Bimba (ACMB), sediada no Pelourinho e com mais de 40 núcleos em diferentes países, a capoeira funciona como porta de entrada para uma aprendizagem mais ampla. A ACMB foi fundada em 1975 por Mestre Vermelho e mantém o legado do próprio Mestre Bimba (1899-1974), criador da Capoeira Regional.
Mestre Bamba afirma que muitos visitantes retornam à Bahia ou continuam praticando capoeira em seus países. Para ele, a transformação do interesse turístico em conexão cultural é a maior recompensa do trabalho de quem ensina e preserva a tradição.
Outra iniciativa que atende a esse novo perfil é o projeto Experience Cultural Exchange, criado em 2022 pela professora Ingride Banzo. Natural de Salvador e residente na Georgia, EUA, Ingride formou uma comunidade virtual de alunas e apaixonados pela cultura baiana. O programa reúne aulas de capoeira, samba, dança afro-brasileira e percussão, além de experiências gastronômicas e encontros com mestres e artistas locais.
“Não é apenas um roteiro turístico. É uma imersão na nossa cultura baiana”, diz Ingride. Em 2024, ela traz duas turmas a Salvador, uma em agosto e outra em novembro, mostrando o apetite por experiências que combinam aprendizado e respeito às tradições.
No campo do afroturismo, Sayuri Koshima, da Like a Sotero, atua há 15 anos com roteiros que destacam a história negra na Bahia. Vinda do quilombo afro-indígena de Baiacu, na Ilha de Itaparica, Sayuri organiza o walking tour afrocentrado pelo Centro Histórico, onde os visitantes entram em lugares ligados à história negra e provam referências como o acarajé.
O turismo religioso comunitário também se reinventou. A Mambré Agência de Turismo Religioso Comunitário, liderada por Hilda Almeida dos Santos, tem guiado visitantes pela Paróquia Nossa Senhora dos Alagados e pela comunidade que guardam memórias de visitas de João Paulo II em 1980, de Santa Dulce dos Pobres e de Santa Teresa de Calcutá. Um dos momentos mais marcantes é a entrada descalça na igreja, que provoca reflexão sobre a realidade dos moradores e transforma turistas em peregrinos.
Essa nova demanda gera impacto econômico direto nas comunidades, valorizando mestres, artistas e pequenos empreendedores. Mais do que novas rotas, o turismo de experiência na Bahia representa um movimento de reconhecimento, pertencimento e preservação cultural.
