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Do desespero ao acolhimento: como CAPS e Juliano Moreira mudaram a psiquiatria

A mente muitas vezes não avisa antes de ceder. Para o baiano Denilson Santos, o colapso chegou na forma de uma depressão profunda que desembocou em quatro tentativas de suicídio. Sem saber mais o que fazer, a família recorreu ao Centro de Atenção Psicossocial (CAPS).

“Foi o que eu tive para recorrer e o que me ajudou. A primeira vez que eu fui no CAPS, já estava nesse quadro de tentativa de suicídio. Já estava numa situação extrema”, conta Denilson. Ele passou por atendimentos em Salvador e na Ilha de Itaparica, com consultas semanais de psicologia, escuta psicanalítica e avaliações mensais com psiquiatras para ajuste de medicação.

A trajetória dele expõe um dilema central: remédios aliviam sintomas ao reorganizar neurotransmissores, mas não apagaram o mundo fora do consultório. Isolamento, pobreza e falta de perspectivas permanecem. Para entender por que o sofrimento psíquico resiste a respostas simplistas é preciso voltar ao final do século XIX, quando o médico baiano Juliano Moreira começou a desafiar as explicações raciais sobre a loucura.

Juliano nasceu em Salvador em 6 de janeiro de 1872, filho de Galdina Joaquina do Amaral, ex-escravizada, e do funcionário público português Manoel do Carmo Moreira Junior. Prodígio, entrou na Faculdade de Medicina da Bahia aos 14 anos e formou-se antes dos 20. Estudos na Europa e contato com a psicanálise freudiana ajudaram-no a construir argumentos científicos contra a ideia de que raça determinaria atraso mental.

Ao assumir a direção do Hospital Nacional de Alienados, no Rio de Janeiro, em 1903, Juliano encontrou práticas que lembravam prisões: celas escuras, uso de camisas de força e violência cotidiana. Ele retirou grades das janelas, aboliu travas físicas, separou adultos de crianças e implantou colônias agrícolas e oficinas de trabalho. “O nome ‘clinoterapia’ foi criado para o paciente que tinha direito a ter um leito no quarto, pois até então as pessoas se aglomeravam no chão”, lembra o Dr. William Dunningham, um dos fundadores da residência médica do Hospital Juliano Moreira.

Na Bahia, a instituição fundada em 24 de junho de 1874 como Asylo São Jorge de Deus passou por denúncias e transformações. Tornou-se pública em 1922, recebeu o nome Hospício São João de Deus e, em 1936, foi rebatizada como Hospital Juliano Moreira. Décadas depois, críticas de profissionais e da sociedade civil sobre condições análogas a um “campo de concentração” impulsionaram a construção de uma nova sede inaugurada em 1982, então a mais moderna do continente.

Hoje o hospital concentra cuidados para crises agudas: de 240 leitos iniciais passou a operar com 88 leitos ativos, com tempo médio de internação entre 15 e 20 dias. “O hospital é concebido exclusivamente para situações agudas em que a pessoa não pode ficar em casa”, explica Dunningham.

No dia a dia da rede pública, porém, a porta de entrada é o CAPS. No Pelourinho, o CAPSad II Gregório de Matos atende majoritariamente homens negros com baixa escolaridade que chegam em situações já agravadas por descontrole financeiro, conflitos e intoxicações. “Por trás do uso de substâncias surgem sofrimentos ligados a conflitos familiares, isolamento, episódios depressivos, sofrimento ligado ao desamparo enquanto direito”, resume o psicólogo Paulo Gonzaga.

Para a psicóloga Laíse Brito, o racismo estrutural cronifica o estado de alerta do corpo, elevando risco de adoecimento mental e somando-se às desigualdades sociais. A prática clínica, dizem profissionais, precisa ser racializada e territorial: ouvir o lugar onde o paciente vive, resgatar sua história social e reconstruir laços por meio de oficinas e atividades coletivas.

Mais de cem anos após Juliano mandar retirar as grades, a psiquiatria brasileira enfrenta um novo desafio ético: derrubar muros invisíveis e enxergar o paciente em sua totalidade — a casa, o trabalho perdido, o prato vazio, o preconceito na rua e as estratégias de sobrevivência que o mantêm vivo.