Carnaval de Salvador em alerta: ‘Não pode ser decidido às portas fechadas’, diz secretário
O secretário estadual de Cultura da Bahia, Bruno Monteiro, defende uma revisão imediata e transparente do Carnaval de Salvador. Em entrevista, ele afirmou que a avaliação da festa não pode ser feita “às vésperas” ou “às portas fechadas” e pediu um debate amplo que reúna todos os setores envolvidos, dos artistas aos catadores.
Monteiro afirmou que a discussão precisa começar logo após a festa, aproveitando o “calor do momento” para levantar o que deu certo e o que falhou. “A avaliação sobre o Carnaval não pode ser uma discussão de véspera”, disse. Segundo ele, os poderes públicos, a segurança, artistas, produtores, donos de blocos e camarotes, ambulantes, cordeiros, motoristas de trio elétrico e catadores devem participar dessa avaliação.
Um dos problemas colocados pelo secretário foi a superlotação em determinados circuitos. O circuito Barra-Ondina chegou a concentrar 1,2 milhão de pessoas em um único dia, cenário que exige medidas de distribuição de público. Para Monteiro, levar atrações de peso para o Campo Grande e planejar melhor a grade de apresentações pode desafogar a Barra. Ele citou que em 2025 houve um dia de Carnaval com mais público no Campo Grande do que na Barra, o que, na sua avaliação, mostra que a fórmula funciona quando há planejamento.
Outro ponto crítico apontado pelo secretário foi a ordem das apresentações. Monteiro classificou como recorrente o problema da falta de transparência na definição e divulgação da fila dos desfiles, o que tem provocado atrasos e trocas durante os eventos. “A discussão e os critérios precisam ser mais transparentes e a divulgação da ordem ser feita com antecedência, para evitar qualquer tipo de confusão”, afirmou.
A polêmica envolvendo Daniela Mercury sobre a ordem dos trios foi citada pelo secretário como exemplo de como debates importantes acabam se transformando em casos públicos e até jurídicos. Monteiro defendeu critérios objetivos e disse que o que artistas como Daniela dizem precisa ser ouvido, sem reduzir o debate a puxões pessoais ou machismo.
Sobre a tendência das pipocas — públicos sem corda que acompanham grandes artistas nas ruas — Monteiro destacou que o pós-pandemia trouxe uma migração para eventos gratuitos. Ele citou nomes como BaianaSystem, Ivete Sangalo, Daniela Mercury, Léo Santana e Igor Kannário como exemplos de artistas que atraíram multidões para a rua e contribuíram para uma experiência popular e diversa do Carnaval.
Em relação às tradições, o secretário ressaltou o crescimento do apoio do governo aos blocos afros, citando que o programa Ouro Negro triplicou na gestão do governador Jerônimo Rodrigues, o que, segundo ele, fortalece o empoderamento desses coletivos e o reconhecimento de seu papel nas comunidades.
O secretário também celebrou o modelo adotado no Pelourinho, que, segundo ele, consolidou o Centro Histórico como espaço de cena alternativa e de participação familiar: “Com mais de 600 mil pessoas que passaram pelos portais de segurança este ano e quase zero índice de registros de violência, o que o Carnaval do Pelourinho nos ensina é que a força do Centro Histórico reside na cultura.”
Sobre a ampliação do Carnaval em 2027 com um dia a mais, Monteiro disse que a medida pode ser positiva se representar distribuição das atrações. Caso contrário, seria apenas “mais um dia de problema”.
A relação entre Estado e Prefeitura, afirmou, é “pontual e objetiva”. Para avançar no planejamento, Monteiro pediu que o debate fique “desarmado politicamente” e destacou a importância da segurança pública e da garantia de trabalho decente aos ambulantes, cordeiros e catadores, criticando condições humilhantes impostas a muitos vendedores durante a festa.
Raio-X: Bruno Monteiro tem 42 anos e é secretário de Cultura da Bahia desde janeiro de 2023. Já foi chefe de gabinete nos ministérios dos Direitos Humanos e das Políticas para as Mulheres, assessor especial da Presidência da República, trabalhou como produtor com artistas como Caetano Veloso, e é presidente de honra do Conselho Estadual de Cultura da Bahia.
