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Caderno em grego e memórias inéditas: Myriam Fraga é homenageada na Flipelô

Um caderno escrito em grego, encontrado por acaso entre objetos guardados em casa, trouxe nesta semana memórias até então desconhecidas da escritora e poeta Myriam Fraga, morta em fevereiro de 2016. O material foi achado por sua filha, a advogada Angela Fraga, e reacende a atenção sobre a trajetória da autora, que será homenageada na décima edição da Festa Literária Internacional do Pelourinho (Flipelô), marcada para 5 a 9 de agosto.

O achado ressalta um aspecto pouco lembrado da poeta: o estudo autodidata. Angela conta que a mãe chegou a ter aulas de grego e que a erudição aparece claramente nos seus versos. Filha única do médico Orlando de Castro Lima e de Beatriz Pondé de Castro Lima, Myriam conviveu desde a infância com as conversas literárias que animavam a casa da família, na Avenida Princesa Leopoldina, na Graça, onde recebiam nomes como Jorge Amado e o artista Mirabeau Sampaio.

O pai, embora diletante e relutante em publicar seus próprios poemas, abriu acesso à biblioteca familiar para a jovem Myriam numa época em que havia restrições sobre o que as mulheres podiam ler. A filha lembra que, ainda criança, Myriam se apressou a aprender a ler para não depender de outros. Era essa pressa que a levaria a decorar versos e a disputar “batalhas de leitura” com o pai.

Aos 19 anos, Myriam casou-se com o advogado Carlos Fraga e manteve-se ligada a livros: a casa do casal reunia tanto a literatura que ela estimava quanto os livros jurídicos do marido. O casamento precoce e a maternidade aos 20 anos, porém, interromperam o plano de uma carreira universitária.

Em 1964, a Editora Macunaíma publicou Marinhas, o primeiro livro de Myriam. A editora havia sido criada em 1957 pelo cineasta Glauber Rocha, pelo poeta Fernando da Rocha Peres, pelo artista plástico Calasans Neto e pelo cineasta Paulo Gil Soares. Dez anos depois, em 1974, Myriam tornou-se sócia da Macunaíma ao lado do poeta Florisvaldo Mattos.

O impacto de Marinhas foi imediato: após o lançamento, Jorge Amado elogiou o trabalho e organizou o envio de exemplares para nomes como Manuel Bandeira, Carlos Drummond de Andrade e Stella Leonardos. O reconhecimento de vultos literários ajudou a projetar a poeta no cenário cultural baiano e nacional.

Entre 1980 e 1986, a convite do engenheiro Geraldo Magalhães Machado, Myriam coordenou a Coleção dos Novos da Fundação Cultural do Estado da Bahia, projeto voltado a autores em início de carreira. O trabalho revelou vozes importantes, como Aleilton Fonseca e Carlos Ribeiro. Ribeiro lembra que o lançamento do seu livro de contos Já vai longe o tempo das baleias (1981), sobre Itapuã, foi decisivo para sua trajetória e atribui a Myriam papel central nesse caminho.

Outra contribuição marcante foi sua atuação na criação da Fundação Casa de Jorge Amado. Ao ver o acervo do escritor, Myriam propôs a criação de uma instituição para abrigar e preservar o material. A mobilização envolveu a Universidade Federal da Bahia, o governo estadual, o apoio técnico de órgãos e a formulação jurídica elaborada por seu marido, Carlos Fraga.

Apesar de se declarar insegura para a função administrativa, Myriam assumiu a direção da fundação por indicação de Jorge Amado e imprimiu uma dinâmica que, segundo colegas, tornou a instituição uma das mais atuantes do estado, com exposições, publicações e seminários.

Colunista dominical em A TARDE, na coluna Linha d’água desde 1984, Myriam deixou também no jornal registros biográficos e críticas literárias. Poetas e críticos ressaltam sua importância: Paloma Amado destaca que Myriam se impôs num ambiente literário majoritariamente masculino; o poeta Florisvaldo Mattos enaltece sua atuação gestora; e Edilene Matos, atual ocupante da cadeira 13 da Academia de Letras da Bahia, ressalta a plasticidade e a força lírica de sua obra.

Idealizadora da Flipelô, Myriam não viveu para ver o projeto realizado: a doença interrompeu esse sonho em 2016, um ano antes da primeira edição. Agora, a festa que acontece no Pelourinho homenageia a autora e revê sua obra e legado, reaproximando o público de uma voz que, segundo críticos, permanece essencial na literatura baiana.