Salvador em bloqueio: o trânsito que faz moradores perderem horas e renda
Engarrafamentos mais longos, ônibus e vans escolares presos em filas, motoristas por aplicativo contando horas de trabalho perdidas e empresas somando prejuízos. O trânsito de Salvador, segundo relatos de quem enfrenta o dia a dia nas vias, virou um gargalo que travou a rotina da cidade.
Na primeira reportagem da série “Trânsito em Salvador: realidade do caos”, o especial mostra como os problemas de mobilidade afetam trabalhadores, estudantes e serviços essenciais. O arquiteto e urbanista Lucas de Lucena Rocha, docente da Wyden, aponta que a raiz do problema está na forma como a cidade foi estruturada historicamente: “Nossas cidades foram estruturadas priorizando o transporte individual motorizado, e Salvador não foge dessa realidade. O crescimento urbano, a concentração de atividades econômicas em determinadas áreas, a distribuição desigual dos equipamentos e serviços e a dependência de grandes eixos viários acabam produzindo deslocamentos extensos e sobrecarregando a infraestrutura existente.”
Para especialistas, intervenções pontuais como alargamento de vias e novos corredores são insuficientes. “É necessário considerar a mobilidade de maneira integrada, articulando transporte público, caminhabilidade, ciclomobilidade, uso e ocupação do solo e distribuição das centralidades urbanas”, afirma Lucas.
Quem vive o trânsito todos os dias descreve o impacto direto na saúde e na renda. Florisvaldo Godinho de Jesus Júnior, conhecido como Júnior Cabeça, motorista de ônibus há 18 anos, opera a linha 1637 (Mirantes de Periperi a Boca do Rio) e reclama da falta de corredores exclusivos e da desordem nos pontos: “Os intervalos entre as paradas são curtos e os horários apertadíssimos, o que gera ainda mais pressão sobre motoristas e cobradores.” Fábio Primo, presidente do Sindicato dos Rodoviários de Salvador, reconhece que o BRT trouxe ganhos quando os ônibus circulam dentro das estações, mas defende mais vias exclusivas e renovação das frotas.
Daniel Caribé, especialista em políticas públicas e membro do Observatório da Mobilidade de Salvador, diz que muitas obras municipais acabaram estimulando o uso do carro: “Grande parte dessas obras não resolvem os gargalos e, muitas vezes, acabam estimulando ainda mais o uso do carro. Podemos reduzir o número de veículos em circulação com um planejamento urbano que aproxime as pessoas de seus locais de trabalho e um sistema de transporte público seguro, acessível e eficiente.”
O secretário municipal de Mobilidade, Pablo Souza, afirma que o BRT solucionou pontos de acúmulo, oferecendo pré-embarque, acessibilidade e testes com ônibus elétricos. Segundo ele, o sistema transporta quase 100 mil passageiros por dia útil. Souza admite, porém, que partes diferentes da cidade demandam modais distintos, como VLT e metrô.
Motoristas por aplicativo e taxistas relatam perda de renda por causa das horas presas no trânsito. João Paulo e Franklin Esquível dizem que jornadas podem passar de 12 horas, com até 12 horas semanais perdidas em engarrafamentos. O taxista Antônio Braz conta que trajetos de 15 minutos chegam a levar uma hora em horários ruins, e aponta pontos críticos como Avenida Tancredo Neves, Garibaldi, São Cristóvão, Bonocô e trechos da orla.
Dados da Transalvador mostram que a frota da capital em 2025 correspondia a 1.116.907 milhão. A pasta listou ainda tempos médios de deslocamento nas manhãs e tardes de dias úteis: Av. Paralela, 54,47 minutos; Av. Octávio Mangabeira, 53,39 minutos; Av. Afrânio Peixoto, 39,73 minutos.
Especialistas, como Lázaro Carvalho, da UFBA, defendem que a melhora do transporte público e alternativas de deslocamento — a pé e por bicicleta — são essenciais para reduzir o apelo ao transporte individual. A prefeitura, por sua vez, detalha intervenções realizadas e previstas, como duplicações, mudanças em elevados do BRT, o BRS Orla e ações relacionadas ao VLT e ao metrô.
Para pontos críticos como o viaduto Nelson Dahia, a administração planeja criar uma via binária e ampliar o viaduto. Há ainda diálogo com o governo estadual para implantação de VLT na Calçada e cessão de área para a chegada do metrô ao Campo Grande. A prefeitura reconhece impacto potencial da ponte Salvador-Itaparica na dinâmica viária.
A série continua: a próxima matéria, prevista para o próximo domingo, 15, vai mapear os cinco nós viários que mais paralisam Salvador e discutir caminhos para destravar a mobilidade.
