ÚLTIMAS

Comprar arte é só para ricos? Feira em Salvador mostra caminhos acessíveis

Uma feira que quer desconstruir a ideia de que arte é privilégio de poucos ocupa o Palacete Tirachapéu, no Centro Histórico de Salvador, entre 12 e 15 de novembro. A Trama, 1ª Feira de Arte Contemporânea da Bahia, reúne mais de 70 artistas e coletivos em salões do casarão de 1917, propondo aproximação direta entre criadores e público.

Na curadoria e direção-geral, Monique Badaró parte de um diagnóstico claro: há muitos artistas na Bahia, mas poucos compradores locais. A constatação vem de observações práticas e de sua pesquisa em diplomacia cultural, que a levou a concluir que a presença internacional não se sustenta se não houver uma cena organizada internamente.

Para tornar arte mais acessível, a Trama concentra ofertas com preços que variam de R$ 500 a R$ 9 mil. Além disso, 80% do valor de cada venda é repassado ao artista, uma decisão que visa fortalecer a renda de quem produz. A organização explica que a comissão de 20% ajuda a cobrir curadoria e montagem, com apoio do programa Palacete Arte.

A feira evita estandes tradicionais: as obras ocupam os salões como uma grande exposição coletiva. Galerias como RV Cultura e Arte, Paulo Darzé, Midlej e Galatea compartilham o espaço com independentes e coletivos, entre eles Acervo da Laje, Pinacoteca do Beiru, Zumví e Ativa Atelier Livre.

“Há uma ideia muito arraigada de que comprar obra de arte é coisa de rico”, diz Monique. Para driblar essa barreira, a Trama aposta em gravuras, múltiplos, peças de pequeno formato e trabalhos de artistas em início de carreira como porta de entrada. A proposta vem acompanhada de atividades que ajudam a criar repertório: visitas mediadas, ateliês abertos e conversas com artistas.

O programa de debates, batizado Diálogos Interdisciplinares, trata de temas como “Como começar uma coleção” (13/11) e “Quem sustenta o sistema de arte?” (14/11), além de discutir trajetórias sustentáveis para criadores. As sessões têm vagas limitadas e exigem inscrição em feiratrama.com.

Artistas presentes exemplificam diferentes trajetórias. Heitor Gabriel traz cerâmica feita com barro de Aporá e argilas recicladas da Ufba. Sua produção retoma memórias de infância e a conexão com materiais locais. Ele também inaugura, no sábado 14, das 10h às 15h, sua primeira individual, “os rastros, as pistas, um caminho”, na galeria do Ativa Ateliê, no Rio Vermelho.

Anderson AC, que começou no grafite, expõe telas rasgadas e entrelaçadas na série Tessituras da Alvorada e comenta a dificuldade de reconhecimento local. Já Jasi Pereira apresenta pinturas sobre madeira que dialogam com a oralidade e com tradições atlânticas, resultado de pesquisa sobre quilombos urbanos e residências artísticas, entre elas uma recente em Luanda.

A curadora Stella Carrozzo destaca que não há uma única narrativa a representar a produção baiana. Para ela, o processo criativo é parte integral da obra, e a feira procura dissolver a timidez do público diante das peças, mostrando materiais, técnicas e contextos.

Além das exposições e debates, a programação inclui performances de Marcondes Dourado e Ana Dumas (Missy Blecape). Paralelamente, nos dias 14 e 15, a Rua Chile recebe o Salvador Cocktail Festival, com mais de 40 bares.

O objetivo da Trama é transformá-la em evento anual, com dados de público e vendas que ajudem a mapear um mercado ainda em formação. Para os organizadores e artistas, o teste é simples: sair da feira com outra relação com a arte, tenha o visitante comprado ou não.

SERVIÇO
Palacete Arte | Trama – 1ª Feira de Arte Contemporânea da Bahia
Quando: 12 a 15 de novembro. Dia 12, das 17h às 22h; dias 13, 14 e 15, das 10h às 22h
Onde: Palacete Tirachapéu (Rua Tira-Chapéu, 1, esquina com a Rua Chile, Centro Histórico)
Quanto: entrada franca, sujeita a lotação. Obras de R$ 500 a R$ 9 mil
Diálogos: 13/11, às 17h30; 14/11, às 15h e às 17h30. Vagas limitadas, inscrição em feiratrama.com.