Achado em casa revela memórias inéditas de Myriam Fraga antes da homenagem na Flipelô
Uma descoberta doméstica trouxe novas lembranças da vida e obra da escritora e poeta Myriam Fraga, que será homenageada na décima edição da Festa Literária Internacional do Pelourinho, a Flipelô, marcada para ocorrer de 5 a 9 de agosto. A advogada Angela Fraga, filha da escritora, encontrou entre objetos guardados um caderno com anotações em grego, usado nos estudos de língua feitos por Myriam.
“Ela estudava muito, era autodidata e chegou a fazer aulas de grego”, diz Angela, ressaltando a erudição presente nos poemas da mãe. O achado reacende imagens de uma trajetória marcada pela leitura precoce, pelo convívio com intelectuais e pelo ativismo cultural.
Filha única do médico Orlando de Castro Lima e de Beatriz Pondé de Castro Lima, Myriam cresceu em um ambiente em que a biblioteca do pai era frequentada por autores e artistas. Jorge Amado e o pintor Mirabeau Sampaio eram visitantes assíduos da casa na Avenida Princesa Leopoldina, na Graça. Com o tempo, Orlando abriu o acesso aos livros, antes restritos às mulheres, e Myriam passou a devorar poesia, decorar versos e competir em batalhas de leitura com o pai.
Aos 19 anos casou-se com o advogado Carlos Fraga e, após a maternidade precoce aos 20 anos, viu adiada a ambição de uma carreira universitária. Mesmo assim, manteve intensa produção literária. Seu primeiro livro, Marinhas, foi publicado em 1964 pela Editora Macunaíma, uma iniciativa editorial da qual ela e o poeta Florisvaldo Mattos foram sócios em 1974.
O lançamento de Marinhas teve repercussão. Após um jantar na casa do pai, Jorge Amado solicitou exemplares do livro e providenciou o envio de alguns para nomes como Manuel Bandeira, Carlos Drummond de Andrade e Stella Leonardos, segundo relata Angela.
Entre 1980 e 1986 Myriam coordenou a Coleção dos Novos da Fundação Cultural do Estado da Bahia, projeto voltado a escritores iniciantes. A coleção revelou nomes como Aleilton Fonseca e impulsionou carreiras, como a do próprio Carlos Ribeiro. “Eu era um escritor inédito e tive esse grande privilégio do convívio com ela”, afirma Ribeiro, destacando a elegância e a generosidade de Myriam.
Outro capítulo importante de sua atuação foi a articulação em torno do acervo de Jorge Amado. Em 1982, ao ver o material que o escritor guardava em sua casa no Rio Vermelho, Myriam sugeriu a criação de uma instituição para preservá-lo. A partir de sua atuação na imprensa, especialmente na coluna dominical Linha d’água, que assinava desde 1984 no jornal A TARDE, passou a defender publicamente a criação do instituto.
Com apoio da UFBA, do governo do estado e de parcerias, o marido Carlos Fraga elaborou o estatuto e a estrutura jurídica que permitiram a constituição da Fundação Casa de Jorge Amado. Angela recorda que Jorge Amado, apesar de hesitante quanto à administração, convidou Myriam para dirigir a instituição. Ela aceitou e, segundo admiradores e colegas, imprimiu dinamismo e critério à fundação.
Críticos, colegas e sucessores destacam a relevância da obra e da atuação de Myriam. Paloma Amado a define como uma poeta de destaque numa cena literária baiana dominada por homens. O poeta Florisvaldo Mattos elogia tanto sua produção poética quanto a capacidade administrativa na fundação, lembrando a atuação da instituição na divulgação cultural da Bahia nas décadas seguintes.
Idealizadora da Flipelô, Myriam não chegou a ver o projeto concretizado. Ela morreu em fevereiro de 2016, vítima de leucemia, um ano antes da primeira edição do evento. A homenagem deste ano retoma o sonho que ela deixou, e as memórias agora redescobertas, como o caderno com grego, ajudam a reconstruir a figura de uma escritora de personalidade forte, erudita e comprometida com a vida cultural do estado.
