Sobrenomes que mandam: por que clãs políticos ainda dominam o Nordeste
Com mais de 54 milhões de habitantes, segundo o censo de 2022 do IBGE, o Nordeste segue como palco de tradições políticas enraizadas que atravessam gerações. O fenômeno assume formas modernas do antigo coronelismo: famílias que transformaram sobrenomes em capital político e seguem influenciando resultados eleitorais estado a estado.
O A TARDE Destaque mostra que, às vésperas do primeiro turno em 4 de outubro, clãs tradicionais permanecem no centro das disputas em diversos estados do Nordeste. A permanência desses grupos, explicam especialistas, não se resume ao carisma de um líder, mas à capacidade de converter influência pessoal em estruturas de poder duradouras.
“Essas famílias se consolidaram porque conseguiram transformar poder individual em estrutura política. Em geral, uma liderança constrói uma base eleitoral, estabelece alianças, ocupa espaços institucionais e cria uma rede de relações que, ao longo do tempo, ultrapassa a própria figura do líder. É desse processo que surge o chamado capital político familiar em torno de um mesmo sobrenome”, diz o cientista político João Vilas Boas.
Na Bahia, o clã dos Magalhães é o exemplo mais visível. Começando com o médico Francisco Peixoto de Magalhães e se fortalecendo com Antônio Carlos Magalhães — figura-chave desde a década de 1960 — a família viu o seu nome ocupar níveis municipais, estaduais e nacionais. Hoje, ACM Neto tenta recolocar o sobrenome no centro do poder baiano, articulando uma imagem que mistura legado e renovação após a derrota para Jerônimo Rodrigues em 2022.
“O sobrenome ajuda porque carrega reconhecimento, memória e uma rede de relações já construída, mas ele não explica tudo. Essas famílias sobreviveram porque souberam distribuir seu capital político entre diferentes gerações, cargos, municípios e alianças, adaptando-se às mudanças do sistema político”, acrescenta Vilas Boas.
Em Alagoas, o embate envolve Calheiros, Lira e o grupo do ex-presidente Fernando Collor de Mello. Renan Calheiros e o filho Renan Filho representam a continuidade do clã Calheiros, enquanto João Henrique Caldas (JHC) se alia a Arthur Lira na promessa de superar o domínio histórico. A disputa será acompanhada na urna no dia 4 e aparece tecnicamente apertada, com pesquisas estaduais apontando possibilidade de desfecho no primeiro turno.
Em Pernambuco, a memória de Miguel Arraes segue viva nas trajetórias de Eduardo Campos e seus descendentes. João Campos e Marília Arraes, prima e primo, disputaram e depois rearticularam alianças familiares em torno do projeto estadual. Do outro lado, a governadora Raquel Lyra tenta manter seu mandato diante de uma corrida acirrada: a pesquisa AtlasIntel de início de setembro mostra Raquel com 48,6% e João Campos com 47,4%.
No Maranhão, a aliança entre a família Brandão e os Sarney — cujo patriarca, José Sarney, permanece como símbolo histórico — reorganiza o tabuleiro local, com Roseana Sarney na disputa ao Senado e Orleans Brandão como nome ligado ao atual governador Carlos Brandão.
O Ceará evidencia outro fenômeno: a divisão interna. A família Ferreira Gomes está diluída entre apoiadores e adversários, com Ciro Gomes candidato ao governo e Cid Gomes integrado à chapa do governador Elmano de Freitas, revelando como rupturas familiares podem redefinir arranjos locais.
Para João Vilas Boas, derrotas eleitorais não significam necessariamente o fim de um clã. “Uma derrota pode enfraquecer um grupo, mas não significa necessariamente o fim de uma família política. O que determina sua capacidade de recuperação é o tamanho da rede que permanece depois da eleição: prefeitos, vereadores, deputados, alianças, estrutura partidária e, principalmente, a capacidade de formar uma nova geração de lideranças.”
O cientista alerta, porém, que o declínio pode se acelerar quando o grupo perde a capacidade de renovar seus quadros: “O declínio mais profundo acontece quando o grupo perde a capacidade de renovar seus quadros e de transformar o capital político de uma geração em força eleitoral para a seguinte.”
O primeiro turno das eleições ocorre em 4 de outubro. Em caso de segundo turno, a nova votação está marcada para 25 de outubro.
