Prédios abandonados no Itaigara viram quartel do crack e tiram paz dos moradores
Dois imóveis abandonados na Rua Almeida Garret, no Itaigara, transformaram um dos bairros mais valorizados de Salvador em palco de violência, depredação e medo. Portas, janelas, esquadrias de alumínio, fiação, tubulações e até quadros de energia foram retirados ao longo dos últimos meses, segundo moradores, que reclamam também de consumo de drogas em via pública, barulho constante e ameaças.
O interior das edificações está tomado por entulho, paredes destruídas e instalações comprometidas. Com as fachadas abertas, o acesso de invasores é facilitado a qualquer hora do dia, e a movimentação dentro dos prédios ocorre praticamente sem interrupção.
Um trabalhador de um edifício vizinho, que preferiu não se identificar por receio de represálias, relata que a situação se agravou recentemente e já provoca prejuízos a imóveis próximos. “Aqui está sendo um transtorno total, porque os moradores ficam com medo. Esses prédios estavam todos completos e esses indivíduos chegaram e arrancaram tudo: portas, janelas, fiação. Já causaram infiltração no edifício ao lado, porque eles detonaram a tubulação, causando um vazamento. Esse outro aqui do lado eles já adentraram e levaram tudo, essa semana mesmo. Até o quadro de luz eles arrancaram da parede.”
Segundo relatos, as forças de segurança são acionadas com frequência, mas a retirada dos usuários e saqueadores é temporária. “A gente liga para a polícia, os agentes se deslocam para cá, mas, infelizmente, também não podem fazer muita coisa. Quando os policiais acabam saindo, os usuários voltam para o local para fazer essas ações.”
O barulho e as ameaças alteraram hábitos simples da vizinhança. “A moradora ficou com medo porque eles estavam aqui. Precisou atravessar com o cachorro, com medo de passar por aqui e ser assaltada. Sabemos que usuários de drogas, geralmente, quando estão no uso do crack, perdem totalmente a noção, e isso é o que está acontecendo”, diz o trabalhador.
Morador de um prédio em frente, Sergio Luis, afirma que a sensação é de perda de controle sobre a própria rua. “Aqui está insuportável. Eu sou morador há 10 anos daqui. Devido a essas duas casas abandonadas, ficamos reféns desses drogados, saqueadores, fazendo baderna noite e dia, fumando maconha a qualquer hora do dia e deixando o local a desejar.”
Segundo Sergio, o receio aumenta à noite e nos fins de semana, quando o movimento na região diminui. Ele também relata episódios de intimidação contra quem tenta impedir as invasões: “Por sinal, uma vez o porteiro foi falar com um deles e eles disseram que voltariam para matar o trabalhador.”
Além da insegurança, há preocupação com a saúde pública. Moradores apontam acúmulo de água em tanques abertos e pontos de piscina de água parada, em que o risco de proliferação do mosquito da dengue se torna real. “Da altura do andar em que eu moro, consigo ver que a água fica empoçada e parada. Existe um tanque aberto, cheio de água. Já temos um bom tempo passando por essa situação.”
O episódio no Itaigara lembra o caso da antiga sede dos Correios, na Avenida Paulo VI, na Pituba, que após anos de abandono também virou alvo de saques e invasões. O imóvel, desativado desde 2018, passou por mais de 20 tentativas frustradas de venda e só começou a mudar de cenário este ano, quando foi arrematado por R$ 97,7 milhões pela construtora Moura Dubeux, que anunciou projeto imobiliário para o terreno de cerca de 35 mil metros quadrados.
Enquanto a antiga estrutura dos Correios caminha para um novo destino, moradores da Rua Almeida Garret esperam que o poder público e os responsáveis pelos imóveis adotem medidas para impedir novas invasões, restaurar a segurança e devolver a tranquilidade à rua.
