Turismo bomba na Bahia, mas episódios de racismo assustam visitantes
As manifestações culturais baianas, fortemente marcadas pelo dendê e pela herança africana, seguem atraindo multidões de turistas. Mas há um paradoxo inquietante: o racismo atua como efeito colateral dessas celebrações, transformando olhares curiosos em episódios de agressão verbal e discriminação.
Casos recentes em Morro de São Paulo, no Pelourinho e no Rio Vermelho, entre outros pontos, têm mostrado que a hospitalidade baiana precisa ser defendida com organização e firmeza. Os profissionais do setor — hotéis, pousadas, bares, restaurantes, guias e trabalhadores da cadeia turística — têm papel central não só na recepção, mas também na proteção dos frequentadores e na cobrança por justiça.
A criação de uma delegacia especializada representa avanço no enfrentamento. No entanto, o registro de 380 boletins de ocorrência relacionados, em termos gerais, à prática da injúria aponta um descompasso entre denúncias e medidas efetivas. Essas queixas são muitas, mas as detenções são poucas, temporárias ou mesmo relaxadas em diversos casos.
Há também a questão da lei de excelência, que estabelece penas para condutas discriminatórias. Na teoria, a norma existe e poderia inibir abusos; na prática, a sensação de impunidade e a morosidade no processamento dos casos acabam dando um aspecto quase cênico ao problema, em que a gravidade do episódio não encontra resposta proporcional.
Isso torna indispensável a mobilização do trade turístico. Não basta apenas preparar equipes para agir diante de conflitos: é preciso que empresários e trabalhadores se comprometam com a produção de provas, com a formalização de denúncias e com o incentivo a testemunhos que viabilizem processos decisivos. Sem esse respaldo, flagrantes cabais podem terminar em perdão ou leniência, alimentando um ciclo perverso de repetição.
A Bahia é hoje campeã entre destinos procurados no país. Depois de um período em que o turismo praticamente zerou durante a pandemia, o estado voltou a registrar recordes de visitação. Com essa recuperação vem também a responsabilidade de avançar em atitudes cidadãs que protejam visitantes e moradores igualmente.
Receber bem não significa tolerar ofensa. A cordialidade baiana não é sinal de fraqueza ou subserviência. Por isso, o setor turístico precisa unir-se para combater o racismo, exigir respostas claras das forças de segurança e cobrar celeridade do Judiciário.
Se a Bahia mantém os braços abertos para o mundo, cabe ao poder público e ao setor privado garantir que essa abertura não seja exploração da hospitalidade, mas sim expressão de um destino que respeita e protege a sua própria cultura e as pessoas que a visitam.
